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Natal Interrompido

Eu não sou um ser humano de tradições duradouras, embora tenha a tendência a me manter fiel a pequenas ações que, um dia, alcançaram resultados adequados. Por conta disso, há muitos anos eu monto um pinheiro natalino durantes as festas de fim de ano. Não para enfeitar a minha casa, muito menos porque o espírito de um feriado que não me agrada e não condiz com as minhas raízes esteja se manifestando através da minha pessoa. Eu decoro a árvore pura e simplesmente para pendurar uma carta ao bom senhor Papai Noel, sabendo que os meus irmãos fariam o mesmo.


Não se deem ao trabalho de imaginar uma inocência que não existe. Garanto que aos seis anos, através de método científico e trabalho de campo com uma equipe de colegas de mesma idade, descobri que as coisas puramente pautadas pelo dogmatismo raramente são verdade, enquanto as mais fantasiosas costumam ser, de fato, verdades pouco aceitas, ou simplesmente ignoradas. A carta era mais um símbolo, cheio de palavras de conforto para criaturas que nos abandonaram a muitos anos, do que um pedido honesto por algo. Pelo menos um dos envolvidos nesse ritual natalino, apesar de muito menos poético, apresentava essa mesma opinião. Por muitos anos, porém, a outra pessoa acreditara piamente no que fazíamos.


Ironicamente esse ano [2021], apesar da árvore ter sido montada como de praxe, não existiu qualquer carta e/ou menção honrosa ao Grande Senhor do Norte. Talvez o desaforo do ano passado, onde a minha correspondência apresentava nada mais do que as palavras "Eu não quero mais estar aqui" - e eu vinha pensando seriamente sobre isso -, havia criado a ideia de que eu não merecia nem mesmo tentar me comunicar com as criaturas fantásticas de outrora. Ou talvez eu só tenha me acostumado com a ausência de certas coisas, e adquirido um certo gosto por não me sentir constantemente destruído.


Depois de muito tempo eu finalmente tenho esboços de planos para os capítulos que virão. Voltei a estudar com uma parcimônia próxima a de antes. Consigo conviver com outras crianças sem precisar me trancar em um quarto escuro por três dias após, perplexo com a crueldade de um mundo onde as pessoas creem em deuses. Consigo olhar para a minha carteira e, eventualmente, esquecer que carrego a dor da perda para qualquer lugar que vou. Mesmo assim, eu continuo perdendo o sono diante da menor possibilidade de lembrar dela - por mais que eu jure que existam outros fatores envolvidos - e persisto em encontrá-la em toda e qualquer situação, como um fantasma amargo destituído de toda a cor que ela tentava espalhar.


Sinto saudades. Sempre sentirei.


- Gabriel Ract -

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