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Lilith

Atenção: contém spoilers de TIAC!!!


Lilith estava voando ininterruptamente há dias. Cansada, tentava em vão se recordar de uma outra situação em que esteve tão desolada. Nem a sua longa jornada após fugir do Inferno, a mando de Asmodeus e Satanás, parecia ter sido tão ruim. Nem mesmo a recente e violenta discussão que travara com os seus superiores, que precedera a sua atual situação, aparentava ter sido pior.


Durante sua jornada, encarava tudo ao seu redor com um asco absurdo. Mesmo após sete anos da queda dos Céus, e da implosão do Inferno, a Terra continuava destruída, e muito longe de seu estado original. Com exceção da grande floresta que cercava a hidrelétrica, região sob os competentes cuidados do Velho, tudo não passava de um enorme deserto sem vida. Mesmo assim, ela acreditava piamente que aquela ainda fosse uma paisagem melhor do que a torre. Estava, porém, redondamente enganada.


Desde os tempos de Adão, a demônio encarava os anjos como sanguessugas inúteis e desprovidas de vontade própria, mas o capricho com o qual estavam arquitetando a nova Torre dos Deuses contrastava com a incompetência destes. Conhecendo os arcanjos, não tinha dúvidas de que Gabriel e Rafael estavam trabalhando mais do que deveriam para manter as coisas em ordem. O primeiro, em especial, deveria estar se divertindo abusando dos humanos, seres que menosprezava abertamente desde o início dos tempos.


Voando mais alto do que as poucas nuvens que cobriam a região, Lilith analisou a construção sem parar por sequer um instante. Após duas grandes voltas pelo ar, se afastou o mais rápido que conseguiu. Afinal, não pretendia ser encontrada pelos anjos já no seu primeiro dia morando próximo a torre. Precisava encontrar, o mais breve possível, algum lugar seguro para se esconder.


Para o seu alívio, não demorou a avistar um único pedaço de floresta, que já lhe havia sido profetizado por Asmodeus. Não era nada majestoso, ou até mesmo grande, mas já era um alívio para ela. Sendo a mãe de todas os íncubos e súcubus, seres que, apesar de seus hábitos predatórios cosmopolitas, precisam estar em sincronia com a natureza para sobreviverem, ela aproveitaria aquele contato com as árvores para finalmente recarregar suas forças.


Sem hesitar, pousou na maior clareira que encontrou. Revigorada, escondeu as asas com frescor, e rodopiou alegremente com o vestido algumas vezes antes de se jogar na terra macia, com um grande sorriso no rosto. Teria se levantado e se alongado demoradamente se, em um relance súbito, não tivesse notado que pequenos olhos a observavam.


Ainda deitada, esticou o pescoço para trás para confirmar que um garoto, com pouco mais de doze anos, estava parado entre duas árvores, encarando-a boquiaberto. Por meros instantes, ela imaginou que este havia visto as suas asas enquanto pousava na clareira, mas logo descartou esta ideia: na posição em que estava, o seu fino vestido branco, seu favorito, mostrava muito mais do que um pequeno pré-adolescente deveria estar acostumado a ver. Considerando a sua beleza, a reação de vislumbre deste poderia ser resultado de outros achados que não a sua origem demoníaca.


Com um movimento ágil e elegante, jogou todo o peso de seu pequeno corpo para os pés, e se levantou sem dificuldades. Depois de espanar o pouco de terra que colara em seu corpo, se virou em direção ao menino, que inconscientemente recuou dois passos. Mesmo que envolto pelas sombras da copa das árvores, ela pode perceber que ele esteve chorando.


Lilith encarou aquela situação com bom humor. Asmodeus havia lhe garantido que o seu contato traria o garoto até ali, ela apenas não esperava que isso fosse acontecer assim que chegasse. Além disso, para a sua surpresa, ela logo notou que o seu chefe não havia exagerado quanto a este. O garoto realmente possuía um que de grandiosidade, muito maior do que um dia talvez fosse capaz de compreender, o bastante para que ela ou qualquer outro demônio conseguisse notar. Ele tinha, assim como Asmodeus a avisara, a aura do imortal que tanto procuravam.


- Acredito que deva pedir desculpas pela forma como me viu – começou, após perceber que ambos estavam mergulhados em silêncio a um bom tempo. Com jeito, se aproximou graciosamente do humano, de uma forma que só ela sabia fazer –, mas não esperava receber visitas hoje.


O garoto, provavelmente envergonhado, recuou mais uma vez. Por instantes pareceu ter lembrado que esteve chorando, e que ainda esbanjava olhos vermelhos e inchados. Não tentou, porém, escondê-los em momento algum. Após se recompor, encarou Lilith com olhos tão vazios que a demônio quase foi obrigada a engolir em seco. Ele aparentava ser inteligente para a sua idade e, como pode notar, alheio a grandes surpresas. Ela suspirou ao imaginar o trabalho que poderia ter para encantar um humano que crescera em uma distopia escravocrata.


- Vejo que não é muito de falar – comentou enfim, voltando com suavidade ao centro da clareira, onde se sentou com dramaticidade – Bom, eu não tenho móveis ou coisas parecidas, e sinto que você não está muito confortável, mas adoraria que se sentasse um pouco comigo para conversarmos – apontou, então, para o chão ao seu lado; de forma faceira, completou: – Eu não mordo, juro.


Um pouco relutante, o garoto saiu de onde estava. Quase sem rodeios, assim que sentiu os primeiros raios de Sol tocarem a pele, sentou-se em frente a Lilith, de pernas cruzadas. Seu olhar não desviou do rosto da demônio por um instante sequer.


- M-me desculpe por ter aparecido do nada – gaguejou, surpreendendo Lilith, que realmente começara a imaginar que o garoto era mudo. Apesar da distorção pela gagueira, ela pode perceber o quanto sua voz era monótona e séria.


- Não se preocupe. Essa floresta não é minha, de forma alguma. Você só acabou me assustando um pouco, chegando de forma sorrateira – sorriu. – Não me importo de ter aparecido por aqui, pelo contrário, adoro companhia.


O garoto não teceu nenhum comentário sobre aquela resposta. Estava inquieto desde que se sentara, sentindo-se alheio ao que estava vivenciando. Depois de vasculhar em silêncio toda a clareira, pousou novamente os olhos sobre Lilith. Parecia bastante sério quando voltou a falar.


- D-desculpe perguntar, mas – fez uma breve pausa -, por acaso v-você é um anjo?


Uma boa quantidade de nojo se acumulou na boca do estômago de Lilith ao ouvir aquelas palavras. Mesmo imaginando que o garoto, inocente a tudo, não fizera aquela pergunta com o intuito de ofendê-la, ser comparada com um ser celestial não foi algo que conseguiu engolir tão bem. Não no atual contexto da relação entre ambas as espécies.


- É claro que não sou – respondeu seca, quase sibilando. – Por que diabos pensaria isso?


- P-porque sempre me disseram que, fora do vilarejo, não existe nenhuma pessoa sequer em todo o mundo. Pelo menos não ninguém vivo...


Lilith, apesar de já esperar por isso, sentiu a sua doçura característica retornar ao corpo após aquela resposta inocente. Apesar de seu jeito sério e estranhamente maduro, ela não podia esquecer que seu convidado ainda era uma criança presa em uma gaiola, sem conhecimento prático algum sobre o mundo. Ao pensar sobre isso, sentiu um aperto no peito imaginando tudo que este deveria ter sofrido nos últimos anos. Felizmente, demônios não costumam se prender a dor alheia por muito tempo: ela era incapaz de se deixar levar por tragédias que não a própria.


- Se esta era a sua dúvida, pode ficar tranquilo. Posso não ter certeza se existem outras pessoas vivas por aí – mentiu –, mas garanto que sou uma exceção a essa regra.


O garoto suspirou profundamente, claramente aliviado. Visto a sua situação, e a forma como chegara a clareira, estava com medo de ter fugido do seu vilarejo apenas para cair diretamente nas mãos do inimigo, um temor completamente válido. Lilith, apesar de perceber isso, julgou que aquele seria o momento ideal para garantir não apenas a atenção do garoto, mas também a sobrevivência deste.


- Eu não me sentiria tão confortável assim, se fosse você – comentou. – Eu posso não ser um anjo, e garanto que não vou te arrastar a força para a torre, mas tenho certeza que logo as criaturas erradas notarão a sua falta, e não tardarão a te procurar. E acredite em mim quando digo que eles vão te achar.


O garoto fez uma longa pausa, em que encarou Lilith sem qualquer expressão no rosto. Depois, fechou os olhos demoradamente, organizando os próprios pensamentos, antes de assumir a conversa.


- Eu fugi sabendo o que fariam quando descobrissem, e não tenho medo que me encontrem. Eu realmente não quero voltar para lá. Não existe motivo real para querer isso.


Lilith mordeu o canto do lábio inferior, com força. O garoto parecia ainda mais frio quando não gaguejava, além de soar impressionantemente seguro de si mesmo. Considerando o que acabara de dizer, o tal contato de Asmodeus provavelmente não esperava que alguém tão jovem estivesse realmente determinado a fugir e não voltar mais. Ou, o mais provável, soubesse que o humano assumiria esta mentalidade, mas não tivesse outra escolha se quisesse fazer com que Lilith o encontrasse. De qualquer forma, ela tinha mais um problema em mãos: se já não bastasse ter de cair nas graças deste, teria que arquitetar como o faria retornar a sua vila, para as suas obrigações.


- Eu não consigo imaginar o que é ser escravo dos anjos – começou, enfim. – Estive fugindo deles desde o início desse inferno, e consegui passar despercebida. Porém sei que escapar da forma que está fazendo, após já ter sido capturado, não vai te trazer nenhum benefício. O vilarejo onde estava certamente é o lugar mais seguro em que poderia estar agora.


- Você tem razão em dizer que não consegue imaginar – respondeu, sem economizar no sarcasmo. – A vila não é segura a partir do momento que os anjos estão lá todos os dias, nos ameaçando como bem entendem. Você não pode dar pitaco sobre segurança morando aqui, afastada de tudo. Muito menos me privar de ter a mesma paz.


Lilith fez uma careta ao perceber o quão bem o garoto articulava os próprios pensamentos e ideias. Ela não estava errada em pensar o quanto ele era inteligente, algo bastante estranho para um humano tão jovem. Mesmo assim, seja por orgulho ou necessidade, ela não pretendia perder aquela discussão.


- Você está errado – recomeçou, mostrando uma falsa convicção em suas palavras. – Não quero te poupar da segurança de estar sozinho, mas sim da solidão, da falta de perspectiva, do medo frequente de que as coisas desandem e você seja descoberto. Você certamente tem pais, ou alguém que tenha te criado. O que acha que vai acontecer com eles quando for dado como desaparecido? Não acha que sentirá ao menos remorso pela morte deles?


O garoto chacoalhou a cabeça veemente, sem ponderar a última pergunta por nem mesmo um segundo. Antes que a demônio pudesse protestar a sua resposta, ele prosseguiu com clareza:


- Se esta é uma das coisas que te preocupa, pode ficar tranquila. Garanto que, diferente de todos os outros que conheço, nasci com a incapacidade de sentir amor ou afeição por qualquer criatura. Inclusive pelos meus pais.


Fosse o garoto qualquer outro ser humano, Lilith certamente não acreditaria naquelas palavras, porém seria estupidez considerar que aquela afirmação havia sido lançada levianamente. Pensando em como seria arriscado insistir em medidas que beirassem ao dramático para convencer o garoto a se comportar, resolveu se deixar levar pelo único plano que veio a sua mente.


- Se é assim que encara o mundo, eu tenho um único pedido a lhe fazer. Peço que me ame, garoto, que me ame com toda a força do seu ser, com todo o sentimento que nunca soubera que existira dentro de ti. Que me ame como se a sua vida dependesse disso.


O garoto tossiu, engasgado, após ouvir aquelas súplicas. As suas bochechas, antes pálidas, queimavam como brasa quente. Não pelos motivos que passavam pela cabeça de Lilith, porém.


- O-o que está dizendo? – perguntou, incrédulo. – N-não acho que seja possível fazer esse tipo coisa de forma tão simples. Os livros sempre trazem o amor como um sentimento tão complexo e pouco compreendido. E-eu não posso simplesmente começar a amá-la do nada!


- Não sei se alguém já te disse isso, mas você carrega em si toda a complexidade de um mundo humano que já não existe mais – comentou, divertindo-se. – Há diversas formas de se amar, e nem todas são tão complicadas quanto você e os seus livros fazem parecer - acredite em mim.


- Você é completamente doida – concluiu, fatidicamente.


- E você um pouco insensível, sabia disse? – reclamou, fingindo estar fatalmente ofendida, sua especialidade. – Pois bem. Com o intuito de me amar, acho que podemos começar novamente. Quem sabe você possa me dizer seu nome.


- Acho que podemos sim – respondeu o garoto, enquanto coçava a cabeça, encabulado. – Eu me chamo Dário, prazer.


- É um lindo nome, devo dizer.


- Agradeço. Agora, você poderia me dizer o seu nome também?


- Hm. Não tenho intenção nenhuma de te contar – entoou lentamente, enquanto se jogava para trás, com os braços levados para detrás da cabeça.


O garoto levou quase meio minuto para perceber que ela estava falando sério. A primeira consequência que despontara de sua estupidez, por ter sido enganado tão facilmente, foi uma incomoda sensação de peso na base do crânio. Depois, um breve período de confusão mental, onde este ficou sem entender o real significado do que estava acontecendo. Como Lilith já esperava, por mais esperto que o garoto fosse, não possuía malícia o suficiente para perceber quando está sendo flertado.


- Eu não entendo. Por que você daria a ideia de nos apresentarmos se não iria me contar o seu nome? Deveriam ser formalidades básicas.


- Pela mesma resposta que você me deu antes: o amor é um sentimento complexo e inexplicável, que só quem já sentiu alguma vez consegue ser capaz de entender. Eu, para a sua sorte, tenho muito mais experiência que você neste assunto, e garanto que não existe amor se não houver uma pitada de interesse – assim como um pouco de sofrimento. Tão simples quanto parece, agora que tenho o seu nome em mãos, e você não tem o meu, tenho a meu dispor ao menos um pouco da sua total atenção.


Dário inconscientemente levou as mãos ao queixo, pensativo. Após repassar mentalmente trechos que conhecia de cor sobre o amor e suas sutilezas, concluiu que Lilith estava certa em suas afirmações: a estratégia que esta havia arquitetado fazia muito sentido.


- Por mais ilógico que possa soar em um primeiro momento, você tem alguma razão em relação ao que dissera – admitiu. – Você pode não estar totalmente errada.


- Lição número um sobre relacionamentos, Dário: as mulheres estão sempre certas. Ainda mais quando falamos sobre assuntos que os homens, de maneira geral fingem não se importar.


O garoto, mesmo incerto, concordou com a cabeça. Apesar de ter em mente que aquela estratégia era no mínimo estranha, sentia que algo havia despertado dentro de si, e que ele realmente desejava conhecê-la melhor. Mesmo não conseguindo descrever o que estava sentindo, sabia que não poderia sair de perto daquela floresta tão cedo, nem mesmo permitir que os anjos encontrassem a sua amiga.


- Se eu porventura voltar para a vila, poderei te encontrar aqui amanhã?


- Não só amanhã, Dário, mas em todos os dias que se seguirão. Antes que me pergunte, sim, eu vou adorar receber você aqui sempre que desejar.


Desconfiado, após realmente garantir que a demônio o receberia na manhã seguinte, o garoto se despediu da clareira, estranhamente feliz. Lilith o acompanhou com os olhos até que sumisse entre as árvores, antes de rodopiar e cair no chão mais uma vez, aliviada. Era difícil para ela acreditar que depois de tanto tempo vagando a esmo pelo que restara da Terra, se escondendo de todo tipo de divindade, conheceria o ser mais importante, e interessante, que caminhava sobre esse mundo em pedaços. Era ainda mais difícil admitir que ela, uma criatura renegada a milênios, seria uma peça importante para o crescimento deste.


- Dário – comentou para si mesma, enquanto deixava os pensamentos se perderam entre as nuvens do céu. Girava entre os dedos, descontraidamente, o anel negro que vinha escondendo nas costuras de seu vestido. – Não tenho dúvidas de que vamos nos dar melhor do que o esperado.


- Gabriel Ract -

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