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Animus

Era manhã de um dia comercial qualquer. Eu caminhava calmamente pela rua, tentando ignorar ao máximo a sensação de que estava decepcionando uma futura versão minha com o atual descaso que vinha mostrando às aulas da faculdade: por motivos completamente válidos, eu não vinha demonstrando o empenho de outrora com os meus estudos.


Um novo dia, uma nova dimensão. Admito que aquela que estava vendo hoje me soava estranhamente ordinária. Pelo menos eu ainda não havia encontrado, até o dado momento, nenhum ser desconhecido, nenhum Sol extra brilhando no céu, nenhuma construção aterrorizante fixa no horizonte, rodeada por criaturas aladas estranhamente familiares. Por ora, a única adição a minha realidade havia sido um fogo colorido que revestia as pessoas como uma aura. Não que aquilo pudesse ser considerado normal, mas em comparação com todas as maravilhas que vinha presenciando nos últimos dias, reitero, era algo extremamente ordinário.


- Olá, olá. Como vai o meu melhor amigo nessa manhã ensolarada?


O simples contato com a voz que proferira aquelas palavras fora o suficiente para formar um nó em minha garganta. Lá estava ele, novamente em meu encalço, o mártir sorridente que vinha me perseguindo descaradamente, o karma personificado em uma criatura que, ironicamente, apresentava feições humanas, meu autodenominado guia. Como de praxe, aparecera do nada, justamente no momento em que eu já havia formulados dúvidas quanto ao que estava vendo.


- Por acaso eu ouvi você dizer melhor amigo? Pelo que vem ocorrendo nas últimas semanas, achei que fosse o único.


Ele assumiu uma expressão ofendida, com uma falsidade que não fez questão de esconder. Tornou-se uma espécie de hobby perceber esse tipo de sutileza em seu comportamento excêntrico.


- Vamos lá, então. Acredito que não esteja, mais uma vez, inclinado para enrolação. Diga-me o que está vendo para que eu possa me sintonizar.


Pragmático, como de costume. Se existia algo que me fazia tolerá-lo era a sua inabilidade em lidar com formalidades, além de seu vasto conhecimento sobre o multiverso paranormal. O fato de ele fugir rapidamente após alcançar os seus objetivos também lhe conferia um ar atraente.


- Consegue ver aquele casal no ponto de ônibus? – apontei, então, na direção de um rapaz embotado, envolto por viciantes chamas negras, e de uma mulher falastrona, cercada por intensas labaredas vermelhas. – Assim como todas as pessoas que encontrei hoje, eles estão envoltos por chamas coloridas. E como ninguém aparenta estar em pânico, imagino que seja algo que apenas eu consiga ver.


- Interessante escolha, a do Acaso. – comentou, enquanto levava as mãos a cabeça, manipulando mecanismos de busca que apenas ele conhecia. – Isso explica por que diabos não está aterrorizado, apenas mergulhado em dúvidas. Conhecendo sua persona simplória, deve estar pensando o quão pífio tudo isso aparenta ser, mas posso lhe garantir que está sendo apresentado a algo muito mais especial do que imagina. Afinal de contas, essa é uma dimensão deveras peculiar.


- Desenvolva.


- Como desejar, vossa Excelência. – fez, então, uma longa e irritante reverência, gesto merecido após minha seca demanda. – De todos os mundos acessíveis aos nossos olhos, este é um dos poucos realmente correlacionado com o nosso. Ele costuma representar fisicamente parte das nossas abstrações, escancarando o verdadeiro sentimento apresentado pelas pessoas.


Não precisei de mais dados para compreender o que estava enxergando. Se aquilo fosse verdade, as chamas que envolviam todos aqueles que encontrara até então eram nada mais do que representações dos sentimentos expressos na ocasião.


- Imagino que as cores sirvam para diferenciar cada sentimento, certo?


- Depois de algumas semanas comigo, preciso comentar que ficara mais inteligente – zombou, com uma expressão que transbordava sarcasmo. – Não apenas as cores, como também as características de cada chama servem para discernir e caracterizar diferentes sentimentos. Uma forma simples, porém fascinante, de se analisar as coisas. Por exemplo, não tenho dúvidas de quem daquele casal carrega o sentimento mais negativo em relação aos dois. Talvez até um pouco de culpa, quem sabe?


Demorei algum tempo analisando outras sutilezas na expressão dos dois amantes. As chamas negras combinavam com a expressão apática do rosto do rapaz, porém a intensidade daquele sentimento era muito maior do que se poderia captar pelas minúcias de seu comportamento. Entrar em contato com aquele universo deveria facilitar a experiência de lidar com outros seres humanos, além de ser uma experiência potencialmente divertida. Eu quase não tinha dúvidas de que aproveitaria muito aquele dia.


Pelo menos fora o que eu imaginara por breves instantes. Assim que a realização de que conhecer os sentimentos de alguém é semelhante a compreender os próprios pensamentos da pessoa, fui brutalmente assaltado pela ideia de que a ignorância muitas vezes é uma benção.


- Você pode até ficar mais esperto com o tempo, mas continua sendo um livro aberto para os olhos atentos. Teste rápido – começou, risonho. –, qual a cor da minha chama?


Tratava-se de uma pergunta idiota, já que eu estava do lado dele desde que aparecera. Não havia nada em volta de seu corpo, assim como do meu, possivelmente alguma exceção dos paranormais às regras daquele universo. Me forcei, porém, a reparar com atenção aos contornos do corpo de meu parceiro. Existia uma sutil chama bruxuleando ao seu redor, quase inexistente.


- Incolor.


- Exatamente. Total agenesia de sentimentos.


Discretas faíscas amarelas serpentearam por seus braços, desaparecendo sem deixar qualquer rastro. Sem dúvidas um sinal, antes não captado, de deboche. Um clássico, em se tratando da nossa relação.


- Todos os seres possuem as suas próprias chamas, porém não é qualquer sentimento banal que consegue gerar cores, quiçá as manter. Apenas aqueles mais fortes e característicos padecem do mal de serem vistos. Afinal de contas, se tudo aqui fosse colorido, estaríamos vivenciando um verdadeiro caos.


Apenas após aquele comentário, convenientemente percebi que uma ou outra pessoa caminhava pelas ruas da cidade sem esbanjar fogos coloridos. Eu havia sido leviano em minhas observações: naquele horário, considerando a rotina da maior parte das pessoas em São Paulo, obviamente teríamos uma imensidão de sentimentos fortes, por isso o mar de cores que vinha encontrando.


Aquela informação me fez voltar a ficar animado. Meu diminuto grupo de amigos aparentava ser o mais controlado possível, para não dizer donos de uma sinceridade ímpar. Eu possivelmente sobreviveria sem grandes sequelas a um dia conhecendo um ou outro sentimento destes.


- Isso me deixa um pouco mais aliviado. Seria estranho encarar as pessoas com quem convivo sabendo mais sobre elas do que deveria.


Meu parceiro não teceu nenhum comentário perspicaz sobre o assunto, apenas me encarando com certo desapontamento. Conhecendo a sua personalidade pobre em floreios, eu provavelmente havia deixado algo óbvio passar despercebido. Desta vez não tive que pensar muito para perceber o que era.


- Talvez eu deva voltar a me preocupar um pouco – emendei, rapidamente. – Me conte sobre esse tal caos.


- Pensei que não fosse perguntar sobre – comentou, com um largo sorriso no rosto. – Peço que volte a sua atenção ao casal no ponto de ônibus, por algum tempo. Imagino que eles já devam estar próximos. Para a nossa sorte, São Paulo persiste tendo um excelente sistema de transporte público.


Infelizmente não podia debater positivamente quanto a falta de estrutura da cidade. Apenas não compreendia como aquilo poderia estar nos favorecendo. Por sorte, eu já não tinha pressa, e sabia que, eventualmente, acabaria descobrindo seja lá o que deveria descobrir. Aquilo havia se tornado uma máxima desde que comecei a ver as mais bizarras das coisas.


Passaram-se poucos minutos até que o chão subitamente começasse a tremer. Não era um terremoto no meio do Brasil, mas sim um tremor proveniente do universo que observávamos. Uma semana atrás e aquela discrepância entre visão e tato teria revolucionado a minha vida. Agora, era apenas mais uma coisa incrível que vivenciava.


- O que diabos estamos esperando? – perguntei, inconscientemente.


- Peço que espere. Não vai querer acabar com a surpresa justamente agora. Tão próximo.


Antes que eu pudesse contestar, uma enorme perna negra aterrissou com um estrondo ao nosso lado. Tentei segurar o impulso de pular para trás, mas não obtive sucesso: meu cérebro não conseguiu assimilar rapidamente a informação de que estávamos em universos diferentes.


Elevei os meus olhos para um ponto mais alto. Tratava-se de um bisão humanoide, negro como a noite, de aproximadamente seis metros de altura, que carregava nos ombros um machado rústico igualmente gigante. A criatura caminhava lentamente, com passos firmes e poderosos, que geravam pequenos tremores sempre que alcançavam o chão. Era um ser magnífico.


Cogitei pedir alguma explicação sobre a sua aparição, mas sabia que aquele não era o momento oportuno para tal. O animal, ignorante a presença de reles humanos algo oniscientes, avançou em direção ao casal que acompanhávamos, parando a poucos metros do ponto de ônibus.


A criatura permaneceu onde estava por alguns instantes, encarando fixamente a dança desengonçada que as duas chamas faziam entre si, em transe. Depois, como se satisfeito com o que assistira, agarrou o machado com uma desenvoltura que não havia demonstrado até então, e investiu horizontalmente contra as intensas labaredas. Estas, liberadas dos corpos que assombravam, se aglomeraram na forma de uma bola de energia, que fora prontamente recolhida e consumida pelo bisão que as ceifara.


Permanecemos em absoluto silêncio, admirando a criatura se perder por entre prédios que sequer existiam em sua realidade. Eu tentava, atônito, assimilar o que acabara de presenciar: havia sido a primeira vez que assistira algo de outra dimensão interagir diretamente com a minha. Foi durante esse período de confusão que me deparei com grandes dentes brancos.


- U-um Minotauro coletor de sentimentos – exclamei, impressionado demais para não dizer algo. – Incrível!


- Não chame aquilo que desconhece pelo nome da figura mais próxima que encontrara em sua realidade – é extremamente ofensivo. Apresento-lhe, meu caro, Affectus venatores, ou, como gosto de chamá-los, Animus. Eu acho engraçado quantos de você existiam na Grécia Antiga para contar histórias de dormir aos outros, mas o quão poucos de mim para desempenhar as devidas funções de um guia...


- Animus – repeti, hipnotizado por aquele apelido, ignorando qualquer comentário subsequente ao seu nome. – O que exatamente são estas criaturas?


Fiel aos trejeitos que o representavam, ele teatralmente invocou a sua enciclopédia em pleno ar, e a folheou calmamente, com a mesma graça cômica que envolvia todos os seus gestos, encontrando com facilidade o verbete que buscava. Se eu não tivesse certo interesse pelo que me contaria, estaria rindo sonoramente.


- Affectus venatores. Touros humanoides desprovidos de qualquer forma de razão, sendo os únicos habitantes de uma das inóspitas dimensões acessórias associadas a nossa. Tratam-se de seres solitários e de hábitos diurnos, portadores de um apetite insaciável, que os força a buscar, constantemente, pela única forma de alimento que conhecem: as chamas geradas pelos mais poderosos sentimentos humanos. Até onde se sabe, são criaturas imortais, sem métodos de reprodução conhecidos.


Absorvi todas aquelas palavras com bastante atenção. Infelizmente não havia nascido com a mesma habilidade de meu parceiro de invocar objetivos que continham conhecimentos profundos sobre a mais diversa parafernália paranormal, da qual estava sendo, aos poucos, apresentado: eu dificilmente voltaria a entrar em contato com informações tão importantes, e precisava aproveitar tudo o que podia.


- Eles são seres fantásticos – continuou, animado. – Especialmente para alguém como eu, que tem a missão não apenas de disseminar conhecimento, mas de futuramente gerá-lo. Existe muito a ser descoberto sobre eles. Principalmente quanto aos seus hábitos alimentares que tendem a selecionar certos sentimentos, o que impacta consideravelmente na forma como nós, seres humanos, vivemos a nossa vida – parou, então, para respirar. – Estou curioso. Se você pudesse chutar algum sentimento para entrar nesta lista, qual seria?


Eu odiava aquelas perguntas que vinham após algum monólogo recheado de conhecimento. Estas soavam como testes escolares desprovidos de benefícios práticos. Principalmente quando eu sabia exatamente o que responder.


- Provavelmente paixão, raiva, felicidade. Sentimentos fortes e comumente explosivos, que somem com a mesma facilidade que surgiram, provavelmente porque há quem os extirpe rapidamente. Estou enganado?


- Nem um pouco errado – confirmou, em um tom recheado de auto-satisfação. – Costumo dizer que eles são donos de uma brutalidade necessária. Arrancam as emoções descontroladas pela raiz, acalmando o instável coração humano, enquanto mantém aquelas típicas de uma situação menos estimulante, necessárias para uma boa convivência em sociedade. São criaturas essenciais, se me permite a deliberação.


Não discordava dele, de forma alguma. O ônibus do casal finalmente apareceu para resgatá-los. Sem as chamas que antes os envolviam, ambos soavam mais plácidos, com menos culpa, menos exageros. O trabalho silencioso e compulsório realizado pelos Animus era essencial para nós. Afinal, era de conhecimento geral que algumas emoções, apesar de incríveis, fugiam do controle com facilidade, causando danos irreversíveis, muitas vezes colossais.


Quando percebi, minha atenção estava presa nos prédios que nos cercavam, enquanto encarava o céu com um falso descaso. Me peguei imaginando coisas que passam apenas na cabeça daqueles que viveram por muito tempo em cidades grandes, e que te fazem assumir uma visão incomum do mundo. Não demorei a chegar em uma estranha conclusão.


- Uma pena que não sejam criaturas aladas. Se tivessem asas, talvez tivéssemos menos melancolia nas metrópoles modernas.


- Gabriel Ract -

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