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Serpentes de Areia - Parte 1

“Há muitos séculos uma estranha atividade é praticada e patrocinada por vários países da África Saariana. A história obscura desta arte remete a tempos longínquos, quando a única forma de circulação dentro deste território era através de corajosas caravanas, que suportavam semanas caminhando pelo deserto, a mercê de mil e uma formas de perigo. Conta-se que em certos trechos, em especial aqueles que atravessavam os grandes oásis, muitos desses comboios não chegavam ao seu destino, nem mesmo quando fortemente escoltados. Após anos de mistério, sem uma explicação plausível para esses desaparecimentos, certo dia meia dúzia de sobreviventes retornou de uma expedição fatídica, trazendo luz sobre o que estava acontecendo: serpentes gigantes estavam atacando os viajantes do Saara. Por ordem do governante local foi realizada uma busca cuidadosa na região do ataque e, após comprovação do dado recebido, uma reunião entre diferentes chefes de Estado, de várias cidades e países africanos, foi realizada. Deste conselho extraoficial, após muita discussão e ponderação, foi decidido que seriam criadas inúmeras guildas governamentais para a caça e controle destas perigosas criaturas (...) Nas últimas décadas, com o advento de meios de transportes mais velozes e independentes do meio terrestre, as serpentes de areia, tradução literal do nome com o qual ficaram conhecidas, deixaram de ter um impacto considerável na economia da maioria dos países saarianos. Mesmo assim uma quantia exorbitante de capital público continua a encher os cofres destas guildas, para muitos destes países um luxo desnecessário, e inconcebível. Afinal, qual a real função destas obscuras organizações nos dias de hoje? Tudo indica que nenhuma: elas são apenas uma memória de um passado nunca revelado.”


Aquela era a terceira vez, apenas na última hora, que lia aquele amontoado impensado de palavras, escritas por mim em um raro momento de desespero. Já fazia algum tempo que eu, Natália Costa, autointitulada repórter investigativa de renome internacional, conhecida por descrever a fundo o funcionamento de quadrilhas de traficantes do Rio de Janeiro, e por desmascarar mais de uma organização que usava de falsa caridade para promover atos insólitos e inumanos, não trazia ao público uma história com um impacto adequado ao meu repertório. Uma espécie de empecilho comum em meu ramo: quanto maior a fama, maior a dificuldade de se infiltrar em organizações secretas, ou de meter o nariz em tramoias de larga escala.


Depois de muito tempo pressionando historiadores e políticos de vários países, atrás de uma história desconhecida que valesse a pena mergulhar, recentemente entrei em contato com a obra-prima citada, sobre as serpentes de areia. Uma sociedade secreta financiada por Estados cada vez mais pobres, prometendo cuidar de criaturas que pareciam ter saído de um livro de fantasia qualquer – um prato cheio para uma repórter do meu calibre. Precisei apenas de algumas semanas de pesquisa, assim como poucos subornos orientados, para que – voilà! – tivesse em mãos um contato de dentro de uma dessas guildas.


De imediato, peguei o meu fiel notebook, e redigi um modelo de reportagem passivo-ameaçadora, o conteúdo total do amontoado de palavras que estava lendo. Arrependi-me de tê-la redigido assim que confirmei o envio. Quem diabos, nos dias de hoje, cairia nesse tipo de investida amadora? Podemos dizer que, por conta desta mentalidade, eu me surpreendi muito quando recebi, dentro de duas semanas, o convite para visitar a principal base da dita guilda.


Confirmada a minha viagem, parti do Brasil para o Cairo no primeiro voo que consegui. Chegando lá, acompanhei dois jovens rapazes em uma expedição de jipe pelo deserto, que durou aproximadamente três horas. Em meio ao nada, troquei novamente de veículo, decolando em um helicóptero particular, onde perdi aproximadamente uma hora e meia de vida. Demorou mais alguns minutos para que, perdido entre dunas, nos deparássemos com uma gigantesca construção. Composta por um moderno prédio de metal polido, e cercada por quilômetros de um muro alto de concreto e vidro, recobrindo hectares de areia branca, ela parecia ter sido retirada de um filme de ficção científica. Anotei em meu caderno, o mais fiel companheiro de um escritor, duas indagações: qual teria sido o preço de tudo daquilo? / qual seria o motivo para tudo aquilo?


Depois de darmos duas voltas em torno do prédio principal, pousamos em um heliponto logo à frente da construção. Lá fomos recebidos por um grupo de homens altos e fortes. Redigi um novo comentário: até agora, nove funcionários homens, mas nenhuma mulher. Um dos rapazes, um negro elegante e bem afeiçoado, tomou a dianteira, aproximando-se de mim com um sorriso muito branco, e com os braços abertos para um abraço que não aconteceria.


- Dra. Costa, seja muito bem-vinda! É um prazer tê-la em nossas terras!


- Vejo que providenciaram um intérprete – apontei sem pensar muito, estranhando o inesperado som daquele português apaulistado. – Não precisavam ter se incomodado. Conheço as línguas da região.


- Não duvidamos que conheça. Digamos apenas que, por ironia do destino, um angolano abrasileirado – apontou, então, para si mesmo, com uma desenvoltura ensaiada –, seja um dos responsáveis por essa unidade. Nada melhor do que o bom e velho português para afastar possíveis dúvidas, certo, doutora?


Não respondi de imediato. Perdi alguns instantes analisando o quanto aquele sujeito soava irritantemente falso. Se existia algo que eu realmente odiava em todos aqueles anos de profissão era ter que conviver, de tempos em tempos, com pessoas assim. Ainda mais em situações em que aquele comportamento artificial não era necessário. Mesmo assim não deixaria o meu temperamento, intragável, afugentar a primeira boa história que tinha em tempos.


- Eu não contesto o seu ponto, meu caro...?


- ...Marcos. Nada mais do que isso, eu insisto – sorriu largamente, finalizando com um bater de mãos animado. – Bom, feitas as introduções, devo pedir que me siga. Afinal, temos muito o que visitar hoje.


Acompanhei-o, então, por um passeio recheado de informações por entre os inúmeros corredores e salas que compunham aquele lugar. Muito mais animada do que antes, seguia com meu caderno em mãos, anotando todas as informações transmitidas, e fazendo perguntas sempre que julgava conveniente. Como escritora não-ficcional de renome, o meu objetivo era identificar a verdade, e trabalhar em cima do maior número de fatos possíveis o grande furo que planejava redigir: serpentes de areia, realidade, fantasia ou uma farsa bem elaborada? Por ora, o maquinário de alta tecnologia, as salas de pesquisa emolduradas por frascos com diferentes tonalidades de venenos e escamas amorfas, os armazéns com provisões o suficiente para suportar até três semanas de tempestade e os impecavelmente limpos estábulos de camelos apontavam para a primeira opção. Mesmo assim, eu não estava convencida de que aqueles animais realmente existiam, muito menos que os funcionários da guilda não fossem simplesmente tentar me subornar no final – suborno este que eu aceitaria relutante após uma visível crise ética, segundo manda a etiqueta das traições sem sequelas.


Marcos não parou de falar por nem mesmo um segundo. Apesar da sua aura dissimulada, ele soava verdadeiramente encantado por tudo o que faziam, e parecia ter muito orgulho do que estava explicando. Ainda mais importante do que isso, conhecia cada detalhe do que se passava por ali, e não deixou de responder uma só das minhas perguntas – algumas delas, admito, elaboradas unicamente com o propósito de testá-lo.


Já passava do meio-dia quando ele finalmente parou de falar, parando em frente a uma pesada porta dupla de metal. Mesmo em meio a tantos laboratórios e máquinas ultramodernas, ela possuía uma imponência única, quase mágica.


- Bom, acho que com isso terminamos os pormenores. Diante de nós temos a nossa última parada, a mais importante delas. Afinal, doutora, você viajou até aqui para ver as serpentes, certo?


- Para ser honesta, eu vim até aqui para ver tudo. Nada é trivial quando se está em busca da verdade, meu caro – pontuei, levemente ríspida. Nada muito diferente do meu jeito de ser.


- Você não costuma medir as suas palavras. Gosto de pessoas assim, fortes e francas – comentou, sorrindo, sem se mostrar incomodado. – Passando por essa porta, essa tal verdade que busca se mostrará mais clara.


Consenti em silencio, engolindo a minha dura opinião sobre aquele irônico ‘tal verdade’: mesmo que existam opiniões e visões diferentes sobre um mesmo assunto, cavando a fundo, a verdade é e sempre será apenas uma.


A porta deslizou para a lateral assim que Marcos deu o comando. Diferente de todas as que tínhamos visitado até então, a sala que nos aguardava formava uma longa meia lua, com a curvatura côncava, composta por um paredão de acrílico cristalino, permitindo uma visão panorâmica de boa parte do deserto engolfado pelos muros da guilda. De dentro da sala, uma vasta gama de funcionários, homens e mulheres em igual proporção, sentavam atrás de extensas bancadas, e manipulavam os seus computadores e apetrechos com uma irritação palpável. Não demorei para associar aquele comportamento com a minha presença.


- Peço que não se incomode com essa bagunça – comentou Marcos, abanando as mãos. – Quando chega o horário do almoço, as coisas tendem a ser corridas por aqui. Pelo menos em alguns dias do mês.


- Por qual motivo, exatamente?


- Não há por que apressar essa resposta. Você vai descobrir logo mais. Venha, se aproxime do vidro. Já vamos começar o nosso pequeno show.


Segui a sua orientação sem qualquer relutância. Ao vislumbrar com mais nitidez o deserto a nossa frente, pude notar que duas máquinas enormes trabalhavam afastadas uma da outra, em pontos equidistantes de onde estávamos. Não tive qualquer dificuldade em perceber que eram guindastes modificados, e que estavam sendo operados para, possivelmente, elevar os dois camelos que vinham sendo preparados próximos ao prédio onde estávamos por um grupo de funcionários, e transportá-los a algum ponto daquela imensidão arenosa. Pude perceber também que ambos estavam vivos, porém sedados, e mortalmente feridos.


Os guindastes foram posicionados com certa velocidade, afastando-se o máximo que conseguiram da construção principal. Os camelos foram, então, elevados a uma altura que não condizia com nada daquele mundo, com o sangue pingando vivo no chão. Pensei em perguntar a Marcos o que aquilo significava, mas não foi necessário. De muito longe, vindo debaixo do que eu imaginava serem grandes dunas, saíram dois amontoados de areia, ágeis e imprevisíveis, serpenteando de forma rápida e viciante. Quando estavam próximas o suficiente dos mamíferos, as colunas de areia minguaram, e desapareceram.


Fez-se um silêncio doloroso onde estávamos. Sem entender bem o porquê, estava segurando a respiração, petrificada. Sem qualquer aviso, um estrondo surdo tomou forma no deserto enclausurado que assistíamos. Dois seres emergiram do chão em sincronia, e elevaram-se aos céus com uma elegância improvável. Eram serpentes colossais, pintadas com a cor da areia mais límpida, e dotadas da imponência que apenas aqueles seres rastejantes costumam possuir. Sem errar o alvo, fincaram as longas presas em suas pobres e indefesas vítimas, mergulhando-as no chão, onde, após serem massacradas e desfiguradas, foram devoradas em uma única investida.


Sem perceber, assistia àquilo a poucos passos de onde antes estava. Minhas mãos, agora vazias, soavam em abundância, e pulsavam no ritmo do meu coração, o que não me agradou nem um pouco: era orgulhosa demais para permitir que o meu assombro transparecesse por mais tempo. Recolhi a minha caderneta discretamente, e comecei a anotar tudo o que via com grande detalhamento, procurando me acalmar. Marcos foi educado o suficiente para fingir que não percebera aquilo.


- São espécimes maravilhosos. Não concorda?


Desviei os olhos de minhas palavras para Marcos, e dele para as duas serpentes. Terminada a refeição, elas agora se enrolavam uma na outra, exibindo os pescoços dilatados, e os olhos amarelos, hipnotizantes, lindos. Apesar do tamanho, não pareciam se comportar muito diferente de outros répteis.


- Elas são maravilhosas. Nem mesmo eu posso negar isso – comentei, sem tirar os olhos das duas. – Poderia me falar um pouco mais sobre elas?


- Esse é um pedido muito abrangente, doutora. E perigoso: você corre o risco de eu falar por quatro dias sem parar – manteve uma das sobrancelhas arqueada até perceber que eu não iria dar-lhe o gosto de uma resposta, sequer não-verbal, positiva. Pigarreou antes de prosseguir. – Para começo de conversa, preciso dizer que elas não são realmente serpentes. Esses espécimes são algo semelhante a um ornitorrinco. Criaturas atávicas, que representam a transição entre duas classes de animais diferentes, nesse caso anfíbios e répteis.


- Acredito, então, que precisem de grandes quantidades de água para sobreviver – apontei, lembrando-me da minha extensa pesquisa, e dos vários oásis onde as caravanas costumavam ser atacadas.


- Entre outras características dos anfíbios. Estou impressionado que tenha levantado esse ponto. Outra destas é a capacidade de hibernarem quando submetidas a baixas temperaturas e/ou períodos de poucos alimentos, algo que vai muito além da diminuição metabólica dos répteis, se assemelhando mais ao processo de hibernação de muitos anfíbios, em especial ao de algumas espécies de sapos.


- E a coloração delas?


- Acreditamos que se deva a seleção natural de espécimes capazes de se camuflarem com o deserto. Admitimos, porém, que seja uma hipótese fraca. Afinal de contas, que tipo de predador ameaçaria a existência de criaturas tão colossais? Ou, melhor, qual tipo de presa fugiria de um dos seres mais rápidos do planeta em seu habitat natural? E isso sem contar a incrível sensibilidade destes a qualquer alteração sonora em um raio de quase três quilômetros de onde estiverem. Enfim, ainda não encontramos uma resposta satisfatória para essa questão.


- Entendo, e concordo com você: não tenho dúvidas de que sejam extraordinárias caçadoras. Elas alimentam-se exclusivamente de camelos?


- São, obviamente, seres carnívoros, mas em geral não tem distinção quanto ao seu menu. Tanto que ficaram conhecidas pelo desaparecimento de caravanas inteiras, como bem sabe. Até mesmo hoje temos relatos sobre isso – levantou, mais uma vez, uma das sobrancelhas. Eu fingi solenemente não ter visto o gesto. – Em geral espalhamos de quinze a vinte camelos pelo deserto durante a noite, o que além de garantir que continuem caçando ativamente, faz com que durmam por pelo menos duas semanas, em um estado hipometabólico. Com apenas um camelo, como hoje, elas estarão de pé amanhã de manhã, pedindo por mais.


- Correto. Quantos espécimes vocês possuem em cativeiro no momento?


- Nessa unidade, apenas esses dois. Temos alguns outros espalhados em outros lugares, mas aqui é o único ponto atualmente capaz de acomodar um casal deles.


Não teci mais nenhuma pergunta. Voltei a encarar aqueles dois seres extraordinários, que sumiam e emergiam por entre os quilômetros de areia que os confinavam, brincando como se fossem dois filhotes. Após um breve período de tempo, eu já havia digerido muito bem tudo o que havia visto e aprendido. Mesmo impressionada, finalmente comecei a me fazer perguntas, e a duvidar de tudo o que era aparente: ossos do ofício de uma excelente escritora.


Podia simplesmente agradecer a equipe da guilda por me receberem com tanta atenção, e voltar para casa feliz como há tempos não fazia, com uma bela história em mãos. Mas, se eu realmente voltasse agora para o Brasil, tenho certeza de que não demoraria a me arrepender por não ter ido mais a fundo, por não ter chegado ao fim daquela investigação. Sem pensar muito, anotei em meu caderno os seguintes questionamentos: será que essas serpentes são animais de verdade? / se sim, por que eles revelariam apenas agora a existência delas? / por que para mim? Seja lá qual fosse a resposta para essas perguntas, e por mais perigoso que aquilo pudesse vir a ser, existia apenas uma forma de chegar à verdade.


- Eu preciso vê-las de perto.


Marcos perdeu a cor do rosto por instantes. Logo depois, percebendo que mostrara uma reação inadequada para um representante estritamente profissional, fingiu cogitar a minha ideia, uma reação que considerei bastante cômica.


- Me desculpe, doutora, mas trata-se de um pedido inviável. Se me permite a ousadia, é no mínimo perigoso, inadmissível. Você viu do que essas criaturas são capazes.


- Não seja estúpido, Marcos. Não sou burra - apesar de inconsequente. Agora, com o Sol a pino, é claro que seria inviável. Mas durante a noite, enquanto elas hibernam, seria perfeito. E digo mais: como convidada de honra, insisto neste pedido.


Ele levou as mãos ao queixo, perdido em burocracias e regulamentos que eu não duvidava que soubesse de cor, algo típico de homens com a sua função, e eficiência. Não demorou a, mais uma vez, abrir um largo sorriso em minha direção.


- Tudo bem, tudo bem – começou. – Vou confirmar a ideia com meus superiores, mas garanto que tenho o necessário para convencê-los. Peço apenas que, por ora, abuse da hospitalidade que temos a lhe oferecer. Voltarei a chama-la quando for a hora certa.


- Gabriel Ract -


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